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sir-isaiah-berlin.jpgIsaiah Berlin foi um seminal historiador das ideias, um apaixonado pela natureza humana e da sua diversidade.

Acérrimo defensor do pluralismo, defendia que o homem deveria viver mais pela liberdade negativa (cada um deve ter a oportunidade de realizar a totalidade do seu potencial, dentro da sua vontade e não forçado pelo Estado) e menos pela liberdade positiva (liberdade restrita em determinados limites, definidos pelo Estado). Uma boa explicação dos conceitos encontra-se aqui.

Ao olharmos para o nosso redor, vimos que hoje os tempos regem-se cada vez mais por um crescendo da liberdade positiva: o Estado imiscui-se a passos largos como definidor e normalizador dos costumes, como demonstram os excessos de algumas das acções regulamentares da ASAE e da lei sobre o fumar em locais públicos.

Além disso, a própria Europa fomenta este propalar da liberdade positiva. Embora faça bandeira da diversidade europeia, a vaga de normalização e regulamentação vinda dos gabinetes tecno-burocratas é avassaladora. Este tónico na liberdade «imposta» não é só por causa das questões de segurança relacionadas com o terrorismo: é a subtil invasão do politicamente correcto concebido por tecnocratas pseudo-iluminados que percepcionam qualquer desvio à sua concepção normalizadora como um desvio cancerígeno da pureza de conceito.

Talvez isto explique em parte porque a Europa se encontra num lento definhar: a cada vez maior dificuldade dos europeus terem condições para realização integral do seu potencial, pela falta de liberdade negativa.

Para saber mais sobre os dois conceitos de liberdade de Isaiah Berlin, ouça este podcast e consulte a Biblioteca Virtual dedicada ao autor.

Sinais dos Tempos

brain_radiating.jpgUma Nova América emerge? - o perfil de Paterson, o novo governador de NY, afro-americano e invisual, na leitura do Christian Science Monitor

A redoma da eurocracia de Bruxelas vista pelo Economist

A Croácia está no rumo de adesão à UE

A religião está a emergir em nos EUA como força política organizada - liberdade em perigo?

democracy1.JPGHá mais um índice de avaliação da qualidade da democracia e chama-se Everyday Democracy Index (EDI). E é de o levar a sério. Criado pelo think tank britânico para a democracia Demos, o EDI visa avaliar a saúde democrática dos países europeus, numa perspectiva multidimensional.

Ou seja, não avalia apenas o estado das dimensões formais da democracia - sistema político, legalidade e respeito pelas liberdades civis, por exemplo -, mas também abarca o quotidiano democrático: a liberdade e a autonomia no local de trabalho, a partilha e debate das decisões no seio familiar, as relações de amizade e a interacção dos cidadãos com os serviços públicos.

Ao contrário de outros índices de avaliação da qualidade da democracia, a classificação de Portugal no EDI é no fundo da tabela, junto de países do bloco ex-comunista. Razões? Embora a classificação seja razoável nas dimensões formais, há falta de cultura democrática no quotidiano dos portugueses: no trabalho, na família, na relação com a administração pública.

Mais de 30 de anos de democracia não ensinaram aos portugueses o que significa a verdadeira liberdade.

Regressarei à análise do EDI em próximos posts. Há muito para digerir neste excelente estudo. Para fazer o download do documento e ouvir o podcast dos autores clicar aqui.

governo_r_portuguesa.gifPortugal vive momentos de um lento fim de regime. Quando as críticas e lamentos surgem de todos os quadrantes e estratos sociais, quando a crispação social se torna crónica, é sinal que algo fervilha em lume brando, levantando de vez em quando a tampa da panela, por onde derramam ocasionias fios de líquido ferventes que indiciam que se o lume não baixar, a tampa salta, espalhando o líquido borbulhante e extremamente quente.

Foi assim no ocaso da Monarquia e do Estado de Novo. Está a ser assim na III República. Em Portugal, desde as Guerras Liberais que não se fazem revoluções, mas sim «evoluções necessárias»: espera-se que o regime caia de podre, confiando na inércia dos seus supostos defensores.

Assente na partidocracia, o sistema político português debate-se com um paulatino definhamento dos grandes partidos de charneira do regime: o PSD e o PS, sendo esta tendência mais aguda no primeiro. Este estado de coma organizacional dos grandes partidos está a afectar fortemente a governabilidade do país, na sua dimensão local e nacional. Exemplos quotidianos não faltam de má gestão autárquica e de degradação dos pilares do Estado de Direito.

Se nada for feito para inverter esta situação por dentro dos partidos, o mais certo é caminharmos para o estilhaçamento do nosso panorama partidário, com a fragmentação de votos e impossibilidade de ter um governo coeso.

Só restará uma instituição incólume neste processo: a Presidência da República. Num movimento semelhante ao de De Gaulle nos anos 60 do século passado, irá existir margem de manobra para uma refundação da República assente no reforço dos poderes presidenciais. Será uma resposta que preencherá os desejos de figuras providenciais salvadoras da pátria que ainda dominam, e muito, a nossa consciência colectiva. Neste cenário, os partidos deixam de ter importância e o poder passa a ser muito mais centralizado e com maior risco de «caudilhismo».
Se os partidos querem continuarem a ser relevantes como espaço cívico e estruturante da democracia portuguesa, têm de imperativamente mudar a sua atitude e modo de agir. O «Como» será alvo de tratamento em próximo artigo.

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Artigo enviado pelo Jorge Nascimento Rodrigues:

Fez anos que Carlos I, o penúltimo da dinastia dos Braganças, foi assassinado em Lisboa por um grupo de terroristas, numa teia complexa que envolvia antimonárquicos e uma facção conspiradora de monárquicos, ao que parece, segundo as últimas investigações.

Saber quem eram os peões (um grupo de carbonários mais radicais actuando por conta própria?) e os mandantes, é algo que resta apurar ainda.

Obviamente que o assassinato de um chefe de Estado num regime constitucional é um acto de terrorismo condenável politicamente e repulsivo eticamente – seja ele J.F.Kennedy, Salvador Allende, o Bragança Carlos I, ou mesmo o czar russo pelos bolcheviques depois da Revolução de 1917. Não há legitimidade política no uso do terrorismo seja de grupo, de facção ou de Estado.

Se há Chefes de Estado responsáveis por crimes de Estado ou próprios, inclusive por crimes de sangue, devem ser julgados por tribunais e condenados severamente. Mesmo no caso de ditadores sanguinários deverá ser esta a norma, não o atentado terrorista ou a execução sumária, como se tornou moda depois da guilhotina francesa.

O terrorismo político não tem qualquer legitimidade - seja ela a de um Estado revolucionário ou de um grupo lutando por objectivos políticos, ou mesmo de um Estado democrático alegando direito de ‘punição’.

Mesmo uma revolução ou golpe de Estado ao depor um ditador ou um regime ditatorial, deve fazer gala de usar o direito como arma política, e não o terror individual ou colectivo como direito. O leitor aqui dirá - mas que ingenuidade! Ao que responderei: é o que faz a diferença entre os parteiros da democracia, e os batedores de nova tirania.

Posto isto - que diríamos um ponto de princípio - vejamos a questão do penúltimo dos Braganças.

A República era uma questão de tempo em Portugal, desde a emergência dos republicanos como força política face a uma fragmentação monárquica acelerada.

Os republicanos só pensavam em levantamento revolucionário (golpe de estado) - os carbonários mais radicais em actos isolados (uma moda anarco-terrorista da altura contra as figuras da nobreza) e os prováveis conspiradores monárquicos em ajuste de contas familiares.

A dinastia dos Braganças estava minada pela incapacidade geopolítica, encostada à parede pelo aliado britânico com o Ultimatum (na questão do Mapa cor- de-rosa e de toda a expansão colonial, um dossiê que vinha de Luis I, pai de Carlos, mas que calhou a este apanhar com o diktat de Lorde Salisbury) e sem rumo no plano da solução governamental (Carlos havia nomeado dois anos antes, para tomar conta da ‘choldra’, como presidente do Conselho, o ditador João Franco, que só saiu depois, corrido por Manuel II).

O contexto complexo dos reinados de Luis I e Carlos I são abordados no livro Portugal, Pioneiro da Globalização (www.centroatlantico.pt/globalizacao), no capítulo VI, “Crónica do Fim da Mais Velha Aliança do Mundo”.

Este reinado não foi de modo algum um passeio de coche, nem um modelo de clarividência em qualquer área relevante (a geopolítica ou a solução de governação), como alguns saudosistas agora querem pintar - recordando os dotes de pintura ou o interesse pela oceanografia do monarca.

Pelo contrário, o reinado de Carlos Fernando Luís Maria (regente a partir de 1883 e rei de 1889 a 1908) foi o exemplo da decomposição a que chegou a monarquia portuguesa. Mas isso jamais justificaria o terrorismo como arma política de ‘regime change’, como agora se diz.

Não que o que viesse a seguir à queda de Manuel II fosse exemplo de governação superior – os republicanos “intransigentes” converter-se-iam, rapidamente, à realpolitik face às grandes potências, meteriam a viola no saco em matéria de geopolítica, e as soluções de governação foram um desastre ‘rotativista’ e os ensaios de ‘casting’ para ditadores seguiram-se.

Chegados a este ponto, há que separar a condenação do terrorismo de uma suposta bondade da monarquia como regime superior.

A roleta russa

A monarquia baseia-se no direito de alguém ser chefe de estado pela herança sanguínea ou direito divino inventado. É claro que muitas dessas linhagens de sucessão eram puras falcatruas – muitos eram bastardos elevados a reis, por força das circunstâncias. Outros foram assassinados ou presos pelos rivais quando era conveniente, de acordo com a correlação de forças entre as várias facções. Isso aconteceu bastas vezes em Portugal entre primos e irmãos, tios e sobrinhos, mães e filhos e enteados. O que levou o país a aguentar diversos imbecis e alguns bandidos como monarcas. E a sofrer crises dinásticas, guerras civis e riscos de independência por causa desta ‘roleta’.

A monarquia tem um problema congénito: dependemos de um “gene” que tanto pode dar um louco, um imbecil, um bandido ou um assassino como chefe de Estado (como ocorreu algumas vezes em Portugal), como um estadista.

E sem o direito popular de o escrutinar e dar o pontapé (a não ser, como acontecia nas dinastias portuguesas, recorrendo ao assassinato – do envenenamento/’a peçonha’ ao punhal - ou à prisão por outros pares). Essa roleta russa em que vive o regime monárquico é, mesmo em monarquias constitucionais modernas, um problema de fundo.

Para isso se inventou a República desde tempos imemoriais – o voto representativo para eleger e tirar quem não serve à frente da Chefia de Estado. Nas Repúblicas modernas democráticas, o voto popular é hoje progressivamente cada vez mais abrangente, e representativo.

Por detrás do frenesim em torno dos 100 anos do assassinato de Carlos I move-se hoje um grupito de señoritos restauracionistas de uma ordem tumular que já fez prova (negativa) no país. Gente que quer substituir uma parte da oligarquia política actual pelo restauro de outros (velhos e relhos) sistemas rentistas.

A direita parlamentar de cabelinho ensebado, botões dourados, e lenço na lapela ampara alguma desta gente com cheiro a mofo e véus pretos pela cabeça abaixo das madames, julgando que a bisbilhotice e baboseira monarquista das revistas cor-de-rosa tem significado político real no eleitorado.

E uma boa parte da esquerda não sabe AINDA separar, com clareza e repulsa, a República em relação à ilegitimidade do terrorismo. Esta parte da esquerda - um ‘mix’ de republicanismo serôdio de romaria, nostálgicos do primado bolchevique dos fins sobre os meios, esquerdismo e guevarismo de vão de escada - continua com pruridos de se demarcar do terrorismo político.

Enfim, oportunismo das duas bandas - uns porque gostariam de ter um anelzito de brazão de pechisbeque, outros porque ainda continuam a julgar que há ‘bons’ ou ‘uteis’ terrorristas.

Mal vai o país - a ‘piolheira’, diria, com desdém, o Bragança, de Sabóia, Bourbon e Saxe-Coburgo-Gota.

fdemo.jpgO sistema político chinês está a passar uma profunda, mas lenta, transformação para uma democracia «controlada» a partir de cima da cúpula do PC - ler este artigo na Foreign Affairs -, à semelhança dos modelos de Putin e de Chavez.

Este novo tipo de democracias de Segundo Mundo procura sobretudo legitimidade política através de métodos democráticos controlados, em que os candidatos a plebiscito são escolhidos por um partido único e/ou em que o acesso ao espaço público é subliminarmente vedado.

O espaço para as democracias liberais está a ficar cada vez mais exíguo…

Churchil, um político nada «telegénico» para os dias de hoje, e inveterado fumador, foi homem que defendeu os princípios basilares da liberdade e da democracia com denodado empenho. Resiliente, nunca soçobrou perante o autoritarismo nazi e a sua impiedosa máquina de carnificina. É verdade que em muitas coisas já era um político fora do seu tempo (acreditava na manutenção da estrutura do Império Britânico e pensava que tal era possível), mas nunca abdicou daquilo que a Inglaterra simbolizava para o resto da Europa: uma teimosa ilha livre. Lutaria por esse ideal em todo o lado e nunca se renderia. Foi este discurso que marcou a Segunda Grande Guerra.

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