E isso é o que é preocupante:a política na maior potência mundial não se está a reformar por imperativos de ética despida de inclinações religiosas. Pelo contrário - o discurso de combate do défice do político assenta na moral fundada em valores religiosos, destinada a mobilizar as pessoas com base na emoção e não na escolha esclarecida e racional.
Isto depois do século XX ter sido uma busca de sistemas ideológicos que substituíssem o pós-cristianismo (dando origem aos monstros do fascismo e do nazismo), assistimos novamente a uma tendência assente no deificar do político no dealbar do século XXI nos EUA.
O primeiro sinal foi o «compassionate conservatism» de George W. Bush (um «christian born-again»). A abordagem mais secularista de Kerry não pegou na segunda ronda eleitoral de 2004 e eis que aparece Obama em 2008 a galvanizar as massas com estilo de pastor baptista. E, sobretudo, o horror «palinista» republicano, que defende o ensino do criacionismo nas escolas públicas americanas e a missão divina dos EUA no mundo.
É verdade que os EUA não são uma nação pós-religiosa como as que compõe a UE, mas no século XX a sua elite política teve sempre as fronteiras entre a religião e o Estado bem definidas. Essas linhas de separação são agora mais difusas e porosas, e a sua mistura é sempre explosiva, como nos mostra a história da humanidade.
É preciso restituir o espírito das Luzes na política e relativizar o emocional. Como diria Marx, a «religião emoção» é o ópio do povo.
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