Na biblioteca: O futuro da liberdade, de Fareed Zakaria
Dez 19th, 2007 by Ruben Eiras
É verdade que não é um livro «super-recente», mas é um daqueles que - na minha humilde opinião - classifico como incontornáveis para compreender as actuais questões e dilemas com que os sistemas democráticos liberais se debatem.
Escrito num estilo escorreito e de muito fácil apreensão, o «Futuro da Liberdade» de Fareed Zakaria, editor da Newsweek International, versa sobre as condições mínimas para o florescimento de um sistema democrático sustentável, bem como o percurso para lá chegar. E em muitos casos este não é o mais «simpático»: por vezes, é preciso o estabelecimento de ditaduras, focadas no crescimento económico e na estabilidade.
O resultado deste processo de «ditadura iluminada» é a criação de uma classe média com maior poder económico. Com o tempo, isto gera uma massa crítica sociológica com exigências de acesso democratizado ao poder político, não só devido ao seu maior nível de educação superior e conhecimento qualificado, como também pela vontade de aumentar o seu poder financeiro. Fareed Zakaria cita como exemplo o caso português: só quando Portugal se dotou de um determinado nível de classe média e de qualificação superior, é que houve base sociológica para alicerçar um sistema democrático.
Mas isto não é uma lei universal. O factor cultural nas nações também conta. E Fareed Zakaria põe o dedo numa das feridas politicamente incorrectas: não há registo até ao momento do nascimento espontâneo de um sistema democrático sem ser em sociedades de registo ocidental. Nos casos asiáticos existentes, os sistemas foram herdados das ex-potências coloniais (exemplo da Índia) ou impostas (Japão e Coreia do Sul).
E daí surge uma das questões críticas colocadas pelo autor: a China cresce economicamente, mas terá a classe média apetência por um acesso democratizado ao poder político? Quem conhece a China, sabe que neste momento a maioria da população deseja a liberdade económica e para fazer negócios, mas secundariza o acesso ao poder político. Será a democracia liberal um exclusivo do mundo ocidental?
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