Cartas a um jovem democrata - mudança do Estado
Ago 14th, 2007 by Ruben Eiras
Jorge Nascimento Rodrigues, Lisboa, 14 de Agosto de 2007
Não creio que haja reforma efectiva do Estado sem embutir (uma palavra guerreira agora em uso) nele princípios e processos de uma sociedade aberta e sem contrabalançar os efeitos nefastos dos ciclos de gestão partidária.
Uma coisa é o governo eleito por um determinado período, outra coisa é o Estado democrático. Este tem de ter princípios e processos perenes, que limitem a casuística dos ciclos de gestão partidária.
Por isso, creio que o Estado deveria ter alguns princípios simples e óbvios para o comum dos mortais:
- o Estado tem de ser transparente: deve mudar as regras de jogo - os tais processos - após consentimento popular democrático, em eleições; ou seja, a dissolução da acção dos lóbis e esquemas (alguns deles pintados eufemisticamente como direitos adquiridos), e os novos processos, deve ser apresentada como programa eleitoral e votada;
- o Estado tem de ser uma entidade de bem: toda a gente entende isto se perceber o nojo que se sente quando a morte trágica de uma criança que caiu num esgoto por responsabilidade de uma autarquia continua por ser justiçada ao fim de vários anos; é nesses casos extremos que se vê bem a forma como responsáveis políticos eleitos de variadas cores e os seus advogados actuam ignobilmente contra o interesse dos cidadãos em nome do Estado;
- o Estado tem de ser um cliente de bem: toda a gente entende isto quando sabe que um empresário pode ir (vai) à falência porque entidades do Estado pagam por vezes com anos de atraso; há países da Europa em que o Estado é um modelo exemplar de boas práticas de pagamento e onde não há sobreorçamentação e luvas à cabeça;
- o Estado tem de ser «magro» no que respeita a carreiras e carreiristas políticos: os políticos estão no Estado por períodos em que são eleitos, não para lá fazerem carreira profissional, mas por missão (por mais risos que esta palavra possa provocar); por isso aos políticos o que é da política e ao aparelho do estado os profissionais; os profissionais do serviço público, os tais funcionários públicos, têm de ser uma carreira em que se entra por concurso a todos os níveis (e não pela cunha pessoal ou politica) e em que se sobe por mérito e jamais por antiguidade ou inércia (como defendem os sindicatos).
Não acredito nos benefícios das nomeações políticas - exceptuando as situações transitórias dos gabinetes ministeriais ou dos autarcas.
Tudo o resto são profissionais (professionals, no sentido anglo saxónico do termo). É para isso que existe o emprego público - para quem queira ser funcionário público em determinado período da sua vida ou para sempre. Não é o meu caso - nunca foi. Mas tenho imenso respeito pela carreira - pois na minha família sempre houve muitos funcionários públicos de carreira.
E falo de situações transitórias nos nomeados - ou seja, o que é nomeado sabe que sairá com a mudança política e que não será “nomeado” para outro tacho dependente ou incluído na carreira pública, se não tiver prestado provas para tal. Os políticos que tomem medidas de transformar o que é transitório em perene (em carreira de funcionário público para os seus protegidos) devem ser julgados e as suas decisões revogadas sem qualquer direito a indemnização aos envolvidos.
Por isso também defendo o emagrecimento geral do Estado às suas reais funções de gestão da coisa pública com uma carreira de profissionais qualificados, como dizia Drucker. O resto deve ser iniciativa dos cidadãos - empresarial ou outra - mas nunca iniciativa privada protegida pelos governantes. Mas isso já é outra matéria - a actividade económica protegida.
Um Estado de Direito restringiria também severamente essa outra peste…